Dor


Há dias em que a saudade entra, vagabunda, pelas frestas da janela e me acorda com um beijo. E, quando volto a dormir, já não vou só. A dor vem comigo.
É esse o peso das ausências que chegam no sopro da madrugada. O sopro inconstante que envolve e abraça, preenche e incomoda. O sopro que nos lembra que fica apenas o nada depois de tudo porque o próprio mundo se perde por entre as curvas cerradas do desejo de vencer o impossível.
De olhos fechados, vejo-me arrancada de sonhos mais doces, pela vontade de poder tornar reais essas mentiras que a minha alma inventa para me manter viva. E abrir os olhos é somente encontrar a verdade, envolta pelos sentimentos frios que tentei esconder no que há de mais profundo em mim.
A saudade. Esse sopro constante que me arrefece a alma e me gela o coração. Essa vaga de sentidos que me tolhe nas dores mais insensatas. É ela que me visita a cada manhã, por entre a luz morna da alvorada e o fim mal pressentido da escuridão. Luz e trevas. Memória e esquecimento. Desilusão cantada e despida de razões. É tudo isso que me acorda dos meus sonhos e me atira para as paradas de tortura lenta que me moem ao longo de todo o dia.
Mas, inconsciente do mal que causa, é a saudade que me aconchega e é ela que me canta uma canção de embalar para que durma um pouco mais. É ela que se entranha nos meus sonhos e me traz as visões mais belas de tudo o que foi e já não é. E é ela que me sorri quando o sono me toma nos braços e a dor atenua um pouco.
Há dias em que a saudade entra e me beija, me fere. E fico a pensar, entre o sono e a consciência que está tudo bem. Talvez, apesar de tudo, seja essa dor a única capacidade de sentir que me restou. Então, deixo a saudade entrar pelas frestas da janela e abraço-a junto a mim. Para sentir, não importa o quê. E adormecemos as duas na dor mas com um sorriso no rosto porque sabemos que, independentemente de tudo, somos uma da outra, para sempre!

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